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29/05/2011
A ESPIRITUALIDADE PARA OS PRINCIPIANTES
LUIS PELLEGRINI


Há regras de ouro para se caminhar com mais segurança nos diversos caminhos que levam ao despertar do espírito ...

Você é daqueles que descobriram - ou redescobriram - que a vida tem um aspecto espiritual que precisa ser vivido? Ótimo. Bem vindo ao clube dos buscadores do espírito. Também sou sócio dele, e sócio antigo. Mas, tempo de serviço nesse clube não significa necessariamente muita coisa. No caso da minha busca pessoal, tantas foram as idas e vindas, os passos para frente e para trás, tantas as dúvidas e tão poucas as certezas, que tenho sempre o sentimento de ter me afiliado apenas ontem.

Uma convicção? Tenho três: 1. Cada um de nós tem uma consciência espiritual mais ou menos ativada. 2. O sentido da vida é desenvolver e amplificar ao máximo todas as nossas potencialidades a partir da consciência espiritual. 3. Não existe começo nem fim na busca pelo espírito. Só existe o movimento da busca. E, quanto ao caminho, tudo se passa como no verso do genial poeta espanhol Antônio Machado: "Caminhante, não há caminho. Faço meu caminho ao caminhar". Além de convicções, tenho uma certeza: aquela que deposito no poder da transformação.

Muita coisa mudou desde que entrei para o clube, há umas 3 ou 4 décadas. O panorama era então muito diferente do de hoje, quando a discussão dos assim-chamados temas espirituais está em toda parte, nas livrarias e nas revistas, na TV, no cinema, nos bares e restaurantes, nas feiras místicas e até nas teses de mestrado e doutorado das faculdades. Naqueles meus tempos conflituosos de adolescência, o leque de opções que a cultura da época oferecia à reflexão era muito mais reduzido. Limitava-se a três possibilidades principais: a absurda filosofia do absurdo, preconizada pelo existencialista Jean-Paul Sartre e Cia.; o engajamento ideológico numa das nuanças do marxismo; a retirada numa postura existencial cínica e fútil. Como tenho por natureza, e como se costuma dizer, "os olhos maiores que a boca ", assumi por um bom tempo todas as três. Em todas elas, falar da "morte de Deus" era a palavra de ordem. O futuro que elas projetavam era secular, e desenhava o advento de uma sociedade e de um mundo onde o homem substituía a divindade e se apresentava como ser onipotente, senhor absoluto da terra, da natureza e do próprio homem. Dividida entre existencialistas, marxistas e cínicos, a maior parte dos pensadores da época afirmava que o interesse do público pelas questões espirituais iria diminuir mais e mais, até desaparecer. A única realidade seria a da matéria e da energia em todas as suas infinitas formas, e as leis da matéria e da energia seriam também as leis do homem. Como Albert Einstein já dissera e provara não haver diferença essencial entre matéria e energia - "matéria é energia em estado de condensação; energia é matéria em estado radiante" -, tudo parecia definitivamente solucionado e arranjado.

Poucas profecias se revelaram mais equivocadas do que essa. Em lugar de caminharmos tranqüilamente para a segurança de um mundo "sem ilusões ", sustentado e controlado pelas exatidões da ciência e da tecnologia, fomos rapidamente submergidos por um dilúvio espiritualista sem precedentes. As águas desse dilúvio carregavam de tudo: mensagens religiosas convencionais, garimpadas nas tradições do Oriente e do Ocidente; leituras astrológicas, psíquicas, parapsíquicas e mediúnicas; relatos de encontros com anjos, arcanjos e tripulantes de discos voadores; histórias de pessoas que se viam "atravessando túneis escuros " ou "envolvidas por intensa luz " durante experiências próximas à morte; recados reconfortantes de "inteligências superiores "transmitidas por "canalização "; avisos de terror sobre o iminente fim do mundo captadas por legiões de "gurus apocalípticos ".

Os pensadores materialistas tinham pensado em tudo, menos num ponto fundamental: o desejo indestrutível que todo ser humano carrega de nutrir-se na fonte do mistério das origens e das finalidades. O desejo de vida espiritual.

Este é, sem dúvida, o mais lícito dos desejos, por que ditado pela própria essência espiritual de cada um. Parte dele a força motriz que impulsionou e impulsiona, nas últimas três ou quatro décadas, o dilúvio de teorias e práticas mais ou menos espirituais ao qual deu-se o nome de New Age, Nova Era.

Navegar nas águas agitadas - e barrentas - de um dilúvio nunca foi fácil, especialmente para marinheiros de primeira viagem. Os barcos oferecidos são tantos - muitos deles capitaneados por comandantes doidos, ou iludidos quanto às suas próprias capacidades. A primeira recomendação é muita prudência na escolha do barco. E prudência possui um irmão gêmeo sem o qual ela não pode agir: o discernimento.

Vamos começar por um exame do panorama. Para os que se iniciam, os porta-vozes da New Age expressam poucas dúvidas sobre a validez e a importância daquilo que apregoam. Muitos afirmam ser inspirados ou assistidos por anjos ou espíritos-guias, e dizem ter, no início, pouca noção da magnitude da mensagem que produzem. Quando a mensagem está completa, percebem que traçaram um ?mapa dos próximos passos da evolução da humanidade?. Todos parecem concordar que esses ?próximos passos? serão muito largos, enormes, e se referem a uma próxima brilhante aurora milenarista, quando as mentes e os corações atingirão novos picos de iluminação e as pessoas viverão em perfeita harmonia umas com as outras e com a natureza. Muitos líderes desse movimento amorfo declaram já possuir os necessários conhecimentos e as adequadas posturas para que esse grande salto à frente aconteça. Você também, afirmam, pode beber na fonte sem limites da energia do universo, a energia de Deus. Basta adquirir, dizem, alguns cristais dotados de um poder especial de atração dessa energia, ou peregrinar a lugares especiais como Santiago de Compostela, onde existem ?chacras telúricos que emanam energia de alta qualidade; entrar em contato com eles irá incrementar os seus níveis vibratórios?. Manter em alto nível de pureza e intensidade as suas vibrações é, por sinal, muito importante. Exercícios físicos, meditações, respirações, dietas alimentares, banhos, orações são apenas algumas das técnicas que os arautos da New Age oferecem com vistas à melhoria da qualidade vibratória do praticante. Nada contra, em princípio, o uso de cristais e assemelhados, e muito menos as viagens de peregrinação. Mas será que isso basta?

Os gurus da New Age em geral desdenham o conhecimento acadêmico, a ciência, as religiões convencionais e todas as possibilidades que se assentam na racionalidade ou na ortodoxia. Muitos menosprezam o escrutínio intelectual considerando-o sinal de evolução insuficiente, e estimulam seus seguidores a examinar as coisas a partir de um estado mental de suave divagação ou de apaixonada convicção. Contestam também as religiões convencionais - particularmente o cristianismo e o judaísmo -, acusando-as de ter feito lavagem cerebral em seus fiéis e de ter incutido neles imagens deformadas de si mesmos e de Deus. Preferem uma postura religiosa mais eclética e promíscua, onde valores do hinduísmo, budismo, judaísmo, cristianismo, teosofia, espiritismo, paganismo, astrologia, angelologia, ufologia, poder das pirâmides e dos cristais, xamanismo, se fundem e se misturam como farinha de um mesmo saco. Como o movimento New Age extrai boa parte de sua força da proposta integrativa, da declarada intenção de superar divisões artificiais de modo a restaurar a totalidade original, quase tudo pode servir como ingrediente da imensa sopa que oferecem.

A espiritualidade alternativa da New Age vai inclusive para além da morte, através de contatos mediúnicos ou de canalização com espíritos desencarnados ou, pelo menos, até as proximidades desse limite, com aqueles que viveram experiências próximas à morte, na tentativa de conquistar conhecimento que confirme a possibilidade de se alcançar reais estados superiores de consciência e do Ser.

Todo esse atraente ecletismo da New Age faz sentido e é fácil de se entender, dado o relativismo moral e intelectual que caracteriza o momento presente da nossa cultura e civilização. Mas tal ecletismo admite também uma outra convicção que é claramente uma faca de dois gumes: a idéia de que somos nós, e apenas nós, a criar nossas realidades. São comuns na literatura da New Age frases como ?Uma coisa está certa ou errada porque você o afirma?, ou ?A sociedade precisa de regras, mas não podemos impô-las aos outros?. Muitos gurus do movimento afirmam que nós criamos nossa própria realidade, e que por isso somos inteiramente responsáveis por tudo aquilo que nos acontece. Pobreza, doença, desastres, desemprego, velhice e até a morte acontecem por que, de algum modo, nós os trouxemos para nós. Até os desastres naturais são culpa nossa, dos nossos atos, sentimentos e pensamentos negativos. E assim, dadas as condições de penúria moral, física, emocional e mental da humanidade, é de se esperar para breve uma seqüência terrível de terremotos, inundações, tufões e outros pequenos e grandes apocalipses naturais...

É certo que, principalmente no sentido psicológico, criamos nossa própria realidade, na medida em que a visão que temos de mundo, dos outros e de nós mesmos constitui em geral uma projeção mais ou menos distorcida pelo prisma das nossas convicções. Mas dizer que nossos maus sentimentos e pensamentos provocam coisas como a erupção de vulcões é sem dúvida um exagero desmedido. Pior que isso, é resvalar perigosamente pelo terreno insano da paranóia de onipotência.

Talvez o maior risco dessa postura típica da New Age seja exatamente esse: ao insistir tanto nos nossos extraordinários poderes latentes, nas nossas altas possibilidades transcendentais, ela acaba inflando ainda mais o ego individual e coletivo. Um exemplo: nos meios da New Age apregoa-se o tempo todo o amor incondicional por tudo aquilo que existe, por toda a humanidade. Mas quantos seguidores da New conseguem abdicar de uma hora das suas práticas de meditação em prol do amor incondicional, para atender um vizinho necessitado, um colega de trabalho em crise, a saúde da cozinheira que lhe prepara o almoço, e até mesmo um filho, um pai ou mãe, um marido ou esposa que caiu em depressão? Sejamos francos: esse desdém à necessidade ou à carência do próximo imediato - sem falar do próximo distante -, tão comum nos amantes dos altos vôos transcendentais da New Age, não é uma forma clara de egocentrismo?

Por outro lado, o dragão consumista lançou suas garras também sobre o movimento New Age produzindo, como resultado, toda uma parafernália de produtos ?esotéricos? e ?místicos? lançados ao mercado, tanto na forma de objetos utilitários quanto na de livros, revistas, Cds de música da Nova Era, cursos, seminários, spas especializados. A última mina de ouro - para seus proprietários, é claro - são os serviços de adivinhação pelos telefones 0900, uma aberração ao preço de 5 a 10 reais por minuto!

Tudo que é atingido pelo consumismo barato se consome e se transforma em armadilha mortal para o espírito. Mas, graças talvez à Providência Divina, é também lei de mercado que todo consumismo atinge rapidamente seu ponto de saturação. E, como sabemos, todo sistema, ao atingir seu ponto de saturação, inverte o sinal. Aquilo nele que antes era positivo, torna-se negativo. Essa é, paradoxalmente, a maior esperança: que, por saturação, o movimento New Age se desvencilhe de todos os seus exageros, e retorne à sua proposta original de uma vida espiritual simples, natural, e perfeitamente de acordo com a realidade do ser humano, da vida e do mundo.

Um exemplo de vida espiritual simples e verdadeira? Não é fácil encontrá-lo, pois os critérios que a definem mudam muito de pessoa para pessoa. Só posso citar um exemplo a partir dos meus próprios critérios. Acabo de fazê-lo para uma amiga que me visitou, e com quem tive uma conversa onde esse tema aflorou. Disse a ela que, há alguns meses, numa rua em São Paulo, entrei numa loja de cerâmicas. Era na verdade um atelier-escola para idosos aposentados do bairro. Ao redor de grandes mesas, uma dezena de cabeças brancas aprendiam a arte da cerâmica. Ao som de uma suave música clássica, uns modelavam o barro, outros levavam as peças para o forno, outros desenhavam e pintavam motivos geométricos ou florais, e uma senhora aprendia a preparar o verniz. Ao mesmo tempo conversavam e havia aqueles que estavam inteiramente absortos no trabalho. A proprietária-professora do atelier ia e vinha, dando instruções bem-humoradas, corrigindo defeitos, elogiando as peças bem sucedidas. Ao observar tudo aquilo, não tive dúvidas: aquele era um verdadeiro ashram espiritual, cuja ioga corria sobre os trilhos do trabalho criativo dedicado ao belo e ao útil. E aquela professora, embora talvez sem o saber, era para aqueles idosos um verdadeiro guru. Como é guru verdadeiro todo aquele que é capaz de tirar a si próprio, e aos outros, da inércia de uma vida improdutiva, para colocar a todos novamente no fluxo da vida.

Como disse Gautama Buda, ?é através da ação no mundo, e não através do abandono do mundo, que atingimos a realização espiritual?. Jesus queria afirmar o mesmo, ao dizer que aquilo que fazemos ao próximo, estaremos fazendo a ele.

Regras de ouro do buscador espiritual

Existem algumas regras de ouro para quem quer se iniciar na vida espiritual com menos risco de cair nas muitas arapucas misticóides que existem por aí. O americano William Martin, professor de sociologia na Rice University, em Houston, e autor do livro With God on Our Side: The Rise of the Religious Right in America ("Com Deus ao nosso lado: O nascimento do direito religioso na América"), aponta algumas.

1. Ouça a voz da razão e do som senso. Se você não consegue acreditar que a meditação pode fazer com que a pessoa levite; que a doença e a morte são ilusões que podem ser evitadas; que o ser humano tem a capacidade de conjurar tufões e terremotos, não se culpe por se sentir pouco espiritual. Em vez de perder tempo com cogitações desse tipo, procure refletir sobre conselhos como os dados por Robert Gerzon em seu livro Finding Serenity in the Age of Anxiety ("Encontrando serenidade na era da ansiedade "), onde ele aponta algumas leis fundamentais da vida, tais como: "o mal existe "; "nem todos que encontramos irão gostar de nós "; "alguns dos nossos sonhos mais acalentados talvez nunca se tornem realidade"; "todos morreremos, um dia". "Se conseguirmos aceitar todos esses valores", conclui Gerzon, "estaremos no caminho certo da conquista de uma inabalável paz interior".

2. Não dependa apenas da razão. Cultive também os elementos não racionais (não confundir com irracionais) da vida. Preste atenção à natureza, nos seus processos e leis - Leonardo da Vinci e vários outros sábios da humanidade dizia que a observação e compreensão da natureza é a maior das escolas espirituais. Encontre meios para incrementar a vitalidade e a profundidade nos aspectos da sua vida que foram desgastados pela rotina e pela eficiência robotizada. Pratique a quietude. De tempos em tempos faça um retiro espiritual. Reserve um tempo, talvez pela manhã ou à noite, antes de se recolher, para meditar, orar, para praticar exercícios respiratórios ou corporais como a ioga e o tai chi chuan, para ler literatura contemplativa, ou simplesmente para manter em calmo silêncio o corpo e o espírito.

3. Reexplore a tradição religiosa à qual você pertence, buscando nela valores e conhecimentos que você talvez ainda não percebeu. As grandes tradições religiosas - cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo, etc. - possuem todas um fundo espiritual essencial comum, mesmo que a forma ou a linguagem através da qual essa essência se manifesta seja distinta em cada tradição.

4. Permaneça aberto à sabedoria, não importa onde ela se manifeste. Aceitar sem críticas tudo aquilo que nos é oferecido como valor espiritual leva, em geral, mais à confusão do que à salvação. Por outro lado, é ingênuo acreditar que os ensinamentos de todas as religiões possam ser costurados numa colcha de retalhos usável em qualquer ocasião. É igualmente ingênuo e paroquiano imaginar que não temos muito para aprender dos outros que também batalharam para cultivar o sagrado, não importa a qual cultura pertençam.

5. Não imaginar que a busca por significado e pela plenitude seja um vôo solitário. Participar ativamente da comunidade humana contribui muito para a saúde física e o bem-estar psicológico. A comunidade costuma ser também boa fonte de apoio e conforto no caso de fracassos ou derrotas de qualquer tipo. Para muitos buscadores, pertencer a uma comunidade religiosa de algum tipo provê estrutura, orientação e estímulo necessários para impulsionar o crescimento espiritual. Obviamente, nem toda comunidade humana oferece essas vantagens. Algumas produzem inclusive o efeito contrário. Por isso, encontrar uma comunidade significativa - uma igreja, um templo, uma sinagoga, uma mesquita, uma fraternidade, sociedade ou coisa que o valha - é tarefa que deve ser encarada com seriedade, responsabilidade e muito bom senso. Desilusões iniciais não devem ser encaradas como derrotas, e muito menos sinais para que se caminhe sozinho.

O envolvimento em comunidades implica em responsabilidade em relação aos outros. Como enfatiza Robert Gerzon, "a essência de toda regra de ouro é que você e eu somos um". A característica que define a verdadeira iluminação não é certamente a egocêntrica absorção em si mesmo, mas sim o interesse amoroso, compassivo e humilde pelo outro, tanto o próximo quanto o distante .
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Por que MEDITAR e por que participar do próximo mais próximo ...Por que cuidar do seu próximo ?...


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